Vem este dos fundos do princípio de há dois anos, por Janeiro 2011. Foi rigor e desabafo; a agora é aqui também...
(VII)
Recebo, via email, as notas escritas do terno pároco, acompanhadas das fotografias daquela consoada do bispo de Viana, D. Anacleto, com os “sós” da urbe, assistidos pela obra da paróquia de Nossa Senhora de Fátima…
Reflicto longamente; nas palavras e nas imagens, que são de gente conhecida das ruas de todos nós.
Desse encontro de Natal acontecido na casa paroquial, vejo os momentos no corte temporal da objectiva fotográfica, com o bispo a falar com cada qual daqueles miseráveis, dos toxicodependentes, dos seropositivos, homens e mulheres tristes, que choram nos braços daquele sacerdote que sabe a santo e comovo-me também, mas com um toque de rábia que só a força da experiência contém.
Numa das fotografias, a senhora que sei com problemas do foro psicológico, próxima de alguém que conheço do eu-cá-tu-lá, e que no refeitório social faz todas as refeições… por não ter lugar na larga família, de muitos irmãos e primos, quem a acolha e proteja nas suas fragilidades. É gente de antigos títulos nobiliárquicos e que mantém algumas posses, uns mais que outros, claro está. Gente até das reitorias das nossas universidades, da arquitectura de renome, entre outros que tais. E a mulher, já cinquentona, escura, magra e desmazelada, de olhos baixos e tristes, que eu vejo muitos dias da semana sentada no passeio da rua da Bandeira, à espera que o refeitório abra, enquanto tosse fora os pumões, está defronte do bispo que a acarinha.
Da reflexão concluo que há, de facto, coisas difíceis de engolir. A miséria assume muitas formas: a material e a outra, esta talvez mais grave.
Isto quase em tempo de Ano Novo a pedir-me correcção aos defeitos e a alguns feitios, que por vezes são muitos, todos a curtir e respigar quase ao mesmo tempo, nos momentos menos bons, mas sobretudo nos melhores, o que é pior.
Reflicto no caminho da perfeição, que é longo, sem fim à vista, mas divisam-se os desacertos regulares, assim como o prumo porque os devo acertar. Coisas do espírito, fundamentalmente, que cortam na carne e na alma; fundo, portanto, de difícil pacificação, a solicitar mais e melhor concentração na opção de actos e palavras, crítica no ensaio de desejos e antecipações, probidade na comunicação e relações, tanto de tudo a procurar igualar tão abissais diferenças, abruptas nos quereres dos homens diferentes, postos a cada escolho deste trilho da vida cada vez mais transformado no vale da morte, úmbrio de sombras e medos neste porvir, onde nos fazem parecer que só cada qual é realmente importante.
Por isso cada vez mais as famílias perderam o sentido de país, os homens o de comunidade, e até as solidariedades são exercidas sob os néones das grandes empresas que nos pedem para “arredondar” o preço, quando se continua a passar pelo miserável da nossa rua sem que nada se lhe deixe ficar no regaço.
Do preço “arredondado” fica a consciência mais limpa, sem que tenha sido preciso parar, meter-se a mão ao bolso e chegarmo-nos à miséria que connosco vive lado a lado. Caridade assim feita através de outrem, da empresa da moda, a quem dá muito jeito o apoio aos órfãos, aos toxicodependentes, às vítimas de cheias ou de secas, porque diminui a conta do IRC em final de ano. E fica sempre bem, logo, é bom para o negócio.
Conclui-se deste pensamento reflexivo que do “pronto-a-vestir” e da “comida de plástico”, do condomínio fechado para viver ou do “resort” exclusivo nas férias, passámos agora à caridade ensacada a cartão multibanco ou de crédito, em esmola que até por outros é entregue.
E será?
P.S.: BNP para cima e BPP para baixo. Entretanto, o debate político ficou para trás. É o que merecemos, por ninguém querer saber, porque o povo costuma dizer que de política não percebe nada.
Ficam as novelas e os “segredos” da vida. Para quem é, bacalhau basta…
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