domingo, 16 de setembro de 2012

Da publicação já em finais de 2010, hoje a recuperação de um texto visionário, em que os avisos de então tornaram-se a truculência do andamentos dos tempos de agora.

(VI)

O incómodo está aí a alto brado, para incómodo de todos os outros poderes – económico, político, judicial… Em tempo do Nascimento, a Igreja volta à carga alertando para o agravamento da crise em 2011 e suas consequências, uma vez mais pela locução do presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, que desta feita denúncia as “imposições de austeridade” que dominam as soluções governativas de resposta à crise. A isto se junta a voz do bispo das Forças Armadas, na denúncia do aproveitamento do fenómeno da pobreza, por parte dos intérpretes políticos.

É sintomático, mas simultaneamente paradoxal, que no dia em que se celebra a vinda do Salvador, os seus pastores tomem o lugar à cabeça do rebanho procurando reorientar o seu percurso, há muito desviado dos mais óbvios caminhos de solidariedade que a opção cristã verdadeiramente exige. Porque o rebanho desta grei tratada à política de terra queimada, há muito deixou de se encontrar com os verdes pastos prometidos, agora substituídos pelas areias do deserto que os cabecilhas da política obrigam a percorrer.
Se, antes, se pretendeu diminuir desigualdades redistribuindo a riqueza acumulada a um canto fazendo-a escorrer para o outro através das implementações, primeiro e em anos passados, do Subsídio de Desemprego e, mais recentemente, do Rendimento Social de Reinserção, as recentes alterações das regras do primeiro e as condicionantes impostas ao segundo, vão potenciar exponencialmente as necessidades inevitavelmente conduzindo a (ainda) mais fenómenos de exclusão social.

Por isso, quer D. Januário Torgal Ferreira, bispo das Forças Armadas, quer D. Jorge Ortiga, presidente da Conferência Episcopal, são unânimes na ideia de que “a situação económica dos mais desfavorecidos irá agravar-se em 2011”, com o segundo a não se coibir de referir perigos de “explosão social” devida à assumpção, por parte dos portugueses, de “uma posição mais reivindicativa e pró-activa”.
Reflicto nas palavras destes ilustres clérigos, a roçarem o fio da navalha, e compreendo porquê. É que ambos perceberam que, com os actuais poderes instalados, isto já lá não vai de outra forma. Por isso, antes já do que mais tarde… e de pior maneira. Isso percebe-se nas entrelinhas, quando D. Jorge Ortiga refere que “a sociedade portuguesa tem vivido, digamos, com calma”, aventando que a situação poderá não se manter, já que "quando não há o essencial para viver, o povo não se cala". Por outro lado, aponta o caminho afirmando que é preciso pensar "na questão do emprego, porque se não houver emprego e trabalho, é evidente que as condições não podem melhorar".
Conclui garantindo que num ano em que “a política de austeridade vai criar mais pobreza”, não deixará de “denunciar [as] situações que surjam”. No entanto, percebemos a falta de fé deste ministro de Deus, quando questiona até que ponto o Estado será capaz de assumir a responsabilidade que tem de garantir qualidade de vida para todos os portugueses?”.
Mas mais duro é D. Januário, que não se coíbe de considerar uma “pouca-vergonha” por parte do presidente da República e do primeiro-ministro, o aproveitamento político da pobreza, para os quais transfere boa parte da responsabilidade do estado de coisas, avisando que – “se até ao fim de Janeiro, Fevereiro, sem cair em fundamentalismos de base e de datas, se o Governo português não disser a verdade, se não apresentar alternativas, se não indicar apoios, se não apresentar ajudas e solidariedade, se não tiver uma atitude aberta e andarem com retóricas entre o Presidente da República e o primeiro-ministro a discutir a utilização dos pobres, que é uma pouca-vergonha, até do ponto de vista cultural, quer de um quer de outro”, ao que D. Jorge Ortiga, arremata – “eventualmente poderemos sofrer consequências e convulsões sociais muito graves”. Às palavras do seu “irmão em armas”, este último acrescenta ainda que “a civilidade do povo português não é de manter isto e se continuar e a lição não for bem explicada, a começar pelos principais representantes do país – uns dizem que são equilibristas no arame, outros dizem que os pobres são um abcesso que alguns querem lancetar –, se isso não for bem explicado, eu não quero cair em exageros nem em profecias, mas desta forma nós não teremos paz”.

Os políticos incomodam-se no discurso, os financeiros agitam-se nas cadeiras, as autoridades aperreiam com o olhar, mas eu reflicto e concluo que este soar de tambores mais não é que notas preventivas à escalada da guerra, avisos de homens de paz que assistem com preocupação, agora incontida, ao alastrar do descontentamento, preferindo colocar o dedo na ferida que a todos dói, do que participar desta supuração constante do corpo fragilizado da sociedade, que querem que permaneça íntegro, de modo a evitar amputações irreversíveis.