Texto a três tempos, a incluir post-scriptum: a indignação do Cardeal-Patriarca, a odisseia da Santo Padre pelas Espanhas e uma reflexão de mim ao eu.
Vem desde Setembro/Outubro, de 2010
(IV / V)
Ouço e reflicto no sermão do Cardeal-patriarca, D. José Policarpo, no Mosteiro dos Jerónimos durante a cerimónia de ordenação de seis diáconos a pedir solidariedade e esperança em tempos de crise, a propósito das medidas de austeridade previstas no Orçamento do Estado para 2011...
Diz, referindo-se aos tempos de austeridade, que não é aquele o momento de se pronunciar “sobre a justeza das soluções adoptadas ou das causas que nos levaram a esta situação. Solução inevitável, consideraram muitos, solução obrigatória, porque decidida por quem tem o dever de decidir", não deixando de o lembrar pedindo ainda que "cada um esteja atento ao seu próximo, não hesitando em partilhar". Depois, directamente aos novos diáconos, garantiu "sinais de esperança se viverem a vida como caminho de santidade".
Reflicto e infiro que os sinais estão todos aí, agora também nas palavras do mais alto ministro de Deus do nosso país. Não é por acaso que os sacerdotes (como muito bem lhes compete), já não se eximem a tomar papel activo na condução e considerações da vida política da nação. Mais do que ninguém, percebem o limite em que nos movemos, desesperando por mais não conseguirem acudir às solicitações dos mais fracos.
Há muito a taxa da dívida portuguesa alcançou os 7% junto dos credores estrangeiros. O número psicológico do ministro da (des)economia para a entrada do FMI (o que é que cá viria [des]fazer mais?) foi atingido e o senhor desdobrou-se em comunicados “para acalmar os mercados”.
Por terra a contra-informação do governo e seus apaniguados ao povo pobre de espírito – nus vão agora os homens da política, enredados nas suas ilusões, com todos nós atrás. A peneira rompeu a rede e resta a toda esta gente perceber que são tão incompetentes quanto o maior néscio desta vida, maus como os piores, fracos como os mais idiotas. Merecemos estes políticos sem qualquer sabedoria porque já a perdemos há muito permitindo-lhes as mordomias e o mundo já se não complacenta com a esperteza saloia da gente que não lê. O tempora,oó mores: deixai-nos viver o pesadelo até ao último estertor do desespero para que a raiva nos dê o ânimo necessário para sair, rompendo com toda esta mediocridade em que nos deixámos enlear, julgando-nos iguais às cartolas e luvas de pelica que a Europa rica continua a usar, agora apostando na ruína dos pobres de espírito como nós, enquanto renovam os fatos domingueiros.
A 10 de Novembro a taxa da dívida portuguesa bate um máximo de 7,3% e o ministro das Finanças rejubila com o fantástico negócio que Portugal está a fazer. Mas, só nas notícias desse dia, do encerramento de unidades industriais, creio ter contado cerca de mil trabalhadores. Coitados, cinquentões, mansos, a enfileirarem as “novas oportunidades” a regime de chicote, or else… arregimentados ao critério da culpa e da dúvida no porvir, tristes e consternados, chocados, melhor dizendo, lê-se nos seus olhos de trinta, quarenta anos de trabalho, agora inglório. Não haverá relógios de ouro, haverá reformas?
Resta-nos lembrar que a Irlanda já está nos 8% e a Grécia chegou aos 11% - Reflicto que nivelo pelo pior, como os outros, pois no meio deles vivo.
O Santo Padre sai de Santiago de Compostela ainda ao som dos confrontos da polícia com os manifestantes “laicos” que pedem laicidade ao Estado espanhol. Que o Papa custa dinheiro, entre outras que tais. O Papa disserta à comunicação social que a modernidade não pode andar tão afastada da religião. De facto.
A “muito católica Espanha” só assim é na boca de ditadores e historiadores. Afina pelo mesmo diapasão desafinado da “união” portuguesa. Nunca nada assim foi, as provas saltam aos olhos e ouvidos, séculos fora. Os antigos romanos que o digam.
P.S.: Refugio-me na reflexão da leitura deste “Jesus Cristo” de Joseph Ratzinger, este estudo, que tem sido de todos os dias. Ora difícil, também pela ignorância comum, ora excitante a ler como a romance devorado a trote de querer fazer a próxima curva da página o mais rapidamente possível.
É necessário. Nestes tempos de crise, esta leitura ajuda a ter o dobro da atenção, o dobro da responsabilidade, o dobro da interiorização do Eu perturbado com a alteridade tão buliçosa; para acalmar o corpo e a mente sobressaltados; e o espírito e a alma inquietos.
Leitura de dever tardiamente cumprido a dar descanso, ainda que à sombra da dúvida pelos incumprimentos tantos.