Publicado há quase dois anos atrás, um “Domingo de Ramos" emocionante e um Karol Woytila Santo Subito. Também uma nota a um Pai Nosso, de Ratzinger
(VIII)
“Domingo de Ramos”. Ligada a TV a meio da manhã, resto-me entre o café, os cigarros enrolados e algumas fumaças assassinas mas bem sabidas, a ver e ouvir a missa dominical na “quatro”. É em Reguengos de Monsaraz, o Alentejo pouco crente mas a compor bem a igreja.
No adro, o povo engalanado a fatos e vestidos domingueiros, guarnecido da presença dos “escuteiros católicos”, empunha não o ramo da oliveira, símbolo da paz, mas sobretudo largas folhas exóticas. Não aprecio, mas percebo. São as mesmas pessoas que, hoje em dia, apresentam no seu folclore grupos de samba que invadem os hotéis da moda e as praças das vilas em dias festivos nas regiões centro e sul de Portugal. Não hoje, claro está.
Talvez algumas destas meninas, hoje muito compostinhas, façam parte desses grupos. Se são, sei que sorriem muito durante o abanico das ancas ao som de tambores e apitos. Mas aqui não o fazem. Pergunto-me porquê. Não chegou Jesus a Jerusalém aclamado pela populaça que pouco mais tarde o apedrejará? Não entrou ele em burra alheia ouvindo “hossanas”? Porque é que ninguém disse a estas meninas que deviam sorrir, nem que fosse só para a fotografia? Porque é que ninguém lhes explicou daquele momento de glória e alegria?
Corre a missa, a que assisto, sobre a Paixão de Jesus. O padre, mais velho, e dois coadjutores, doutra geração, lêem o missal e descrevem as últimas horas de Cristo. Paro o manejo do tabaco, mortalhas e filtros. Detenho-me na narração e assisto à emoção dos sacerdotes enquanto descrevem a traição de que Jesus foi vítima e a Paixão que se seguiu. Dou por mim a emocionar-me também, no entendimento daquele sofrimento por todos nós.
Cristo assim morre todos os anos, para todos os anos ressuscitar. Mas, hoje, penso que Jesus morre todos os dias enquanto lhe bebemos o sangue e lhe comemos o corpo e a memória em ignomínia. E até parece que Deus morre com ele também. Ressuscitará?
Depois, a semana arrancada segunda-feira com o feriado do 25 de Abril e que termina no domingo com o Dia do Trabalhador no 1.º de Maio; na sexta-feira anterior, o casamento do primogénito do herdeiro ao trono britânico; neste domingo, a beatificação de João Paulo II, a quem o povo aclamou “Santo Subito” (e não foi Karol Woytila, ele próprio, um operário?).
Das duas cerimónias, a minha parcimónia. Primeiro, em espreitar a de sexta-feira, a engalanados brilhos na pompa e circunstância, e até mesmo nos olhos cintilantes dos leais súbditos; depois, o meu olhar quedo na cerimónia beatífica, a duas benzeduras e dedos entrelaçados a momentos.
Incómodo bastante, portanto, quando assisto, a espaços entre leituras de jornais, ao já considerado “casamento do século”. Porque tudo demais, não apenas a hipérbole de gastos e gala a fanfarras, mas também porque incómodo de pena feito daqueles dois jovens feitos centro de mundo. Dois biliões de gentes terão assistido à coisa em directo. Com certeza contaram-me a mim também, mas não, não fiz parte, efectivamente.
Já uma estreita paz sentida, vinda no domingo que se seguiu, quando moveram a esquife do Santo Padre para junto do túmulo de S. Pedro, por aquelas mãos que o tocavam e levavam; também nas palavras de Bento XVI, na quase infinita alegria de gentios muitos. E os padres, esses, transbordando sentimento e Fé profunda naquela memória… Sabe bem saber que, neste mundo de desvario, há homens que ainda amam de tal forma os seus irmãos. E se assim é nestes, também o será para lá do mundo do Cristo.
Mormente a minha educação intelectual e científica, outrossim iminentemente laica – e quase até em oposição a essa minha formação –, sinto-me feliz por conseguir compreender o quão profunda foi a Fé de João Paulo II, assim como a cega crença de milhares na sua lembrança.
Nestes conturbados tempos de homens contra homens, esta é uma verdadeira felicidade que vivo e todos os dias aprendo e assimilo, assim me preenchendo.
No termo da madrugada seguinte, regresso ao “Jesus Cristo” de Ratzinger. Sigo a sua interpretação da oração que Cristo nos ensinou.
Mas não leio religião, somente, trato de filosofia.
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