sábado, 22 de dezembro de 2012

Vem este dos fundos do princípio de há dois anos, por Janeiro 2011. Foi rigor e desabafo; a agora é aqui também...

(VII)

Recebo, via email, as notas escritas do terno pároco, acompanhadas das fotografias daquela consoada do bispo de Viana, D. Anacleto, com os “sós” da urbe, assistidos pela obra da paróquia de Nossa Senhora de Fátima…

Reflicto longamente; nas palavras e nas imagens, que são de gente conhecida das ruas de todos nós.
Desse encontro de Natal acontecido na casa paroquial, vejo os momentos no corte temporal da objectiva fotográfica, com o bispo a falar com cada qual daqueles miseráveis, dos toxicodependentes, dos seropositivos, homens e mulheres tristes, que choram nos braços daquele sacerdote que sabe a santo e comovo-me também, mas com um toque de rábia que só a força da experiência contém.
Numa das fotografias, a senhora que sei com problemas do foro psicológico, próxima de alguém que conheço do eu-cá-tu-lá, e que no refeitório social faz todas as refeições… por não ter lugar na larga família, de muitos irmãos e primos, quem a acolha e proteja nas suas fragilidades. É gente de antigos títulos nobiliárquicos e que mantém algumas posses, uns mais que outros, claro está. Gente até das reitorias das nossas universidades, da arquitectura de renome, entre outros que tais. E a mulher, já cinquentona, escura, magra e desmazelada, de olhos baixos e tristes, que eu vejo muitos dias da semana sentada no passeio da rua da Bandeira, à espera que o refeitório abra, enquanto tosse fora os pumões, está defronte do bispo que a acarinha.
Da reflexão concluo que há, de facto, coisas difíceis de engolir. A miséria assume muitas formas: a material e a outra, esta talvez mais grave.

Isto quase em tempo de Ano Novo a pedir-me correcção aos defeitos e a alguns feitios, que por vezes são muitos, todos a curtir e respigar quase ao mesmo tempo, nos momentos menos bons, mas sobretudo nos melhores, o que é pior.
Reflicto no caminho da perfeição, que é longo, sem fim à vista, mas divisam-se os desacertos regulares, assim como o prumo porque os devo acertar. Coisas do espírito, fundamentalmente, que cortam na carne e na alma; fundo, portanto, de difícil pacificação, a solicitar mais e melhor concentração na opção de actos e palavras, crítica no ensaio de desejos e antecipações, probidade na comunicação e relações, tanto de tudo a procurar igualar tão abissais diferenças, abruptas nos quereres dos homens diferentes, postos a cada escolho deste trilho da vida cada vez mais transformado no vale da morte, úmbrio de sombras e medos neste porvir, onde nos fazem parecer que só cada qual é realmente importante.
Por isso cada vez mais as famílias perderam o sentido de país, os homens o de comunidade, e até as solidariedades são exercidas sob os néones das grandes empresas que nos pedem para “arredondar” o preço, quando se continua a passar pelo miserável da nossa rua sem que nada se lhe deixe ficar no regaço.
Do preço “arredondado” fica a consciência mais limpa, sem que tenha sido preciso parar, meter-se a mão ao bolso e chegarmo-nos à miséria que connosco vive lado a lado. Caridade assim feita através de outrem, da empresa da moda, a quem dá muito jeito o apoio aos órfãos, aos toxicodependentes, às vítimas de cheias ou de secas, porque diminui a conta do IRC em final de ano. E fica sempre bem, logo, é bom para o negócio.
Conclui-se deste pensamento reflexivo que do “pronto-a-vestir” e da “comida de plástico”, do condomínio fechado para viver ou do “resort” exclusivo nas férias, passámos agora à caridade ensacada a cartão multibanco ou de crédito, em esmola que até por outros é entregue.
E será?                                                

P.S.: BNP para cima e BPP para baixo. Entretanto, o debate político ficou para trás. É o que merecemos, por ninguém querer saber, porque o povo costuma dizer que de política não percebe nada.
Ficam as novelas e os “segredos” da vida. Para quem é, bacalhau basta…

*

domingo, 16 de setembro de 2012

Da publicação já em finais de 2010, hoje a recuperação de um texto visionário, em que os avisos de então tornaram-se a truculência do andamentos dos tempos de agora.

(VI)

O incómodo está aí a alto brado, para incómodo de todos os outros poderes – económico, político, judicial… Em tempo do Nascimento, a Igreja volta à carga alertando para o agravamento da crise em 2011 e suas consequências, uma vez mais pela locução do presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, que desta feita denúncia as “imposições de austeridade” que dominam as soluções governativas de resposta à crise. A isto se junta a voz do bispo das Forças Armadas, na denúncia do aproveitamento do fenómeno da pobreza, por parte dos intérpretes políticos.

É sintomático, mas simultaneamente paradoxal, que no dia em que se celebra a vinda do Salvador, os seus pastores tomem o lugar à cabeça do rebanho procurando reorientar o seu percurso, há muito desviado dos mais óbvios caminhos de solidariedade que a opção cristã verdadeiramente exige. Porque o rebanho desta grei tratada à política de terra queimada, há muito deixou de se encontrar com os verdes pastos prometidos, agora substituídos pelas areias do deserto que os cabecilhas da política obrigam a percorrer.
Se, antes, se pretendeu diminuir desigualdades redistribuindo a riqueza acumulada a um canto fazendo-a escorrer para o outro através das implementações, primeiro e em anos passados, do Subsídio de Desemprego e, mais recentemente, do Rendimento Social de Reinserção, as recentes alterações das regras do primeiro e as condicionantes impostas ao segundo, vão potenciar exponencialmente as necessidades inevitavelmente conduzindo a (ainda) mais fenómenos de exclusão social.

Por isso, quer D. Januário Torgal Ferreira, bispo das Forças Armadas, quer D. Jorge Ortiga, presidente da Conferência Episcopal, são unânimes na ideia de que “a situação económica dos mais desfavorecidos irá agravar-se em 2011”, com o segundo a não se coibir de referir perigos de “explosão social” devida à assumpção, por parte dos portugueses, de “uma posição mais reivindicativa e pró-activa”.
Reflicto nas palavras destes ilustres clérigos, a roçarem o fio da navalha, e compreendo porquê. É que ambos perceberam que, com os actuais poderes instalados, isto já lá não vai de outra forma. Por isso, antes já do que mais tarde… e de pior maneira. Isso percebe-se nas entrelinhas, quando D. Jorge Ortiga refere que “a sociedade portuguesa tem vivido, digamos, com calma”, aventando que a situação poderá não se manter, já que "quando não há o essencial para viver, o povo não se cala". Por outro lado, aponta o caminho afirmando que é preciso pensar "na questão do emprego, porque se não houver emprego e trabalho, é evidente que as condições não podem melhorar".
Conclui garantindo que num ano em que “a política de austeridade vai criar mais pobreza”, não deixará de “denunciar [as] situações que surjam”. No entanto, percebemos a falta de fé deste ministro de Deus, quando questiona até que ponto o Estado será capaz de assumir a responsabilidade que tem de garantir qualidade de vida para todos os portugueses?”.
Mas mais duro é D. Januário, que não se coíbe de considerar uma “pouca-vergonha” por parte do presidente da República e do primeiro-ministro, o aproveitamento político da pobreza, para os quais transfere boa parte da responsabilidade do estado de coisas, avisando que – “se até ao fim de Janeiro, Fevereiro, sem cair em fundamentalismos de base e de datas, se o Governo português não disser a verdade, se não apresentar alternativas, se não indicar apoios, se não apresentar ajudas e solidariedade, se não tiver uma atitude aberta e andarem com retóricas entre o Presidente da República e o primeiro-ministro a discutir a utilização dos pobres, que é uma pouca-vergonha, até do ponto de vista cultural, quer de um quer de outro”, ao que D. Jorge Ortiga, arremata – “eventualmente poderemos sofrer consequências e convulsões sociais muito graves”. Às palavras do seu “irmão em armas”, este último acrescenta ainda que “a civilidade do povo português não é de manter isto e se continuar e a lição não for bem explicada, a começar pelos principais representantes do país – uns dizem que são equilibristas no arame, outros dizem que os pobres são um abcesso que alguns querem lancetar –, se isso não for bem explicado, eu não quero cair em exageros nem em profecias, mas desta forma nós não teremos paz”.

Os políticos incomodam-se no discurso, os financeiros agitam-se nas cadeiras, as autoridades aperreiam com o olhar, mas eu reflicto e concluo que este soar de tambores mais não é que notas preventivas à escalada da guerra, avisos de homens de paz que assistem com preocupação, agora incontida, ao alastrar do descontentamento, preferindo colocar o dedo na ferida que a todos dói, do que participar desta supuração constante do corpo fragilizado da sociedade, que querem que permaneça íntegro, de modo a evitar amputações irreversíveis.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012



Texto a três tempos, a incluir post-scriptum: a indignação do Cardeal-Patriarca, a odisseia da Santo Padre pelas Espanhas e uma reflexão de mim ao eu.
Vem desde Setembro/Outubro, de 2010

(IV / V)
 

Ouço e reflicto no sermão do Cardeal-patriarca, D. José Policarpo, no Mosteiro dos Jerónimos durante a cerimónia de ordenação de seis diáconos a pedir solidariedade e esperança em tempos de crise, a propósito das medidas de austeridade previstas no Orçamento do Estado para 2011...

Diz, referindo-se aos tempos de austeridade, que não é aquele o momento de se pronunciar “sobre a justeza das soluções adoptadas ou das causas que nos levaram a esta situação. Solução inevitável, consideraram muitos, solução obrigatória, porque decidida por quem tem o dever de decidir", não deixando de o lembrar pedindo ainda que "cada um esteja atento ao seu próximo, não hesitando em partilhar". Depois, directamente aos novos diáconos, garantiu "sinais de esperança se viverem a vida como caminho de santidade".
Reflicto e infiro que os sinais estão todos aí, agora também nas palavras do mais alto ministro de Deus do nosso país. Não é por acaso que os sacerdotes (como muito bem lhes compete), já não se eximem a tomar papel activo na condução e considerações da vida política da nação. Mais do que ninguém, percebem o limite em que nos movemos, desesperando por mais não conseguirem acudir às solicitações dos mais fracos.
Há muito a taxa da dívida portuguesa alcançou os 7% junto dos credores estrangeiros. O número psicológico do ministro da (des)economia para a entrada do FMI (o que é que cá viria [des]fazer mais?) foi atingido e o senhor desdobrou-se em comunicados “para acalmar os mercados”.
Por terra a contra-informação do governo e seus apaniguados ao povo pobre de espírito – nus vão agora os homens da política, enredados nas suas ilusões, com todos nós atrás. A peneira rompeu a rede e resta a toda esta gente perceber que são tão incompetentes quanto o maior néscio desta vida, maus como os piores, fracos como os mais idiotas. Merecemos estes políticos sem qualquer sabedoria porque já a perdemos há muito permitindo-lhes as mordomias e o mundo já se não complacenta com a esperteza saloia da gente que não lê. O tempora,oó mores: deixai-nos viver o pesadelo até ao último estertor do desespero para que a raiva nos dê o ânimo necessário para sair, rompendo com toda esta mediocridade em que nos deixámos enlear, julgando-nos iguais às cartolas e luvas de pelica que a Europa rica continua a usar, agora apostando na ruína dos pobres de espírito como nós, enquanto renovam os fatos domingueiros.
A 10 de Novembro a taxa da dívida portuguesa bate um máximo de 7,3% e o ministro das Finanças rejubila com o fantástico negócio que Portugal está a fazer. Mas, só nas notícias desse dia, do encerramento de unidades industriais, creio ter contado cerca de mil trabalhadores. Coitados, cinquentões, mansos, a enfileirarem as “novas oportunidades” a regime de chicote, or else… arregimentados ao critério da culpa e da dúvida no porvir, tristes e consternados, chocados, melhor dizendo, lê-se nos seus olhos de trinta, quarenta anos de trabalho, agora inglório. Não haverá relógios de ouro, haverá reformas?
Resta-nos lembrar que a Irlanda já está nos 8% e a Grécia chegou aos 11% - Reflicto que nivelo pelo pior, como os outros, pois no meio deles vivo.

O Santo Padre sai de Santiago de Compostela ainda ao som dos confrontos da polícia com os manifestantes “laicos” que pedem laicidade ao Estado espanhol. Que o Papa custa dinheiro, entre outras que tais. O Papa disserta à comunicação social que a modernidade não pode andar tão afastada da religião. De facto.
A “muito católica Espanha” só assim é na boca de ditadores e historiadores. Afina pelo mesmo diapasão desafinado da “união” portuguesa. Nunca nada assim foi, as provas saltam aos olhos e ouvidos, séculos fora. Os antigos romanos que o digam.

P.S.: Refugio-me na reflexão da leitura deste “Jesus Cristo” de Joseph Ratzinger, este estudo, que tem sido de todos os dias. Ora difícil, também pela ignorância comum, ora excitante a ler como a romance devorado a trote de querer fazer a próxima curva da página o mais rapidamente possível.
É necessário. Nestes tempos de crise, esta leitura ajuda a ter o dobro da atenção, o dobro da responsabilidade, o dobro da interiorização do Eu perturbado com a alteridade tão buliçosa; para acalmar o corpo e a mente sobressaltados; e o espírito e a alma inquietos.
Leitura de dever tardiamente cumprido a dar descanso, ainda que à sombra da dúvida pelos incumprimentos tantos.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Uma reflexão prelúdica à estreia de uma leitura a começar no primeiro volume da dita. Algo a continuar depois...

 (III)


“Jesus Cristo”, na interpretação do então cardeal Joseph Ratzinger, onde quis fazer a tentativa de apresentar o Jesus dos evangelhos como o “Jesus histórico” em sentido verdadeiro e próprio (…) uma figura historicamente sensata e convincente”.

Esta será sempre uma leitura feita com esforço. Porque tal como sempre me pareceu todos estes anos, a linguagem destas redacções é sempre encriptada, caindo sucessivamente no campo dogmático. No entanto, logo às primeiras páginas consigo receber algo das conclusões que, ao longo desses anos tenho, intuitivamente, conseguido retirar. No caso do texto já lido, as notórias dificuldades da igreja Católica impor o seu Cristo divínico, desde logo quando o método histórico-crítico, científico, portanto, em si mesmo não consegue construir, em oposição à teologia da fé que mais não pode do que dimensionar um arquétipo estruturado no dogma, isto é, “na força de acreditar”.
Pergunta-se: dada a preponderância que o método ganhou na mente do vulgo especialmente a partir da década de 50, tem vindo esta força a ser suficiente na explicação da figura de Jesus Cristo, em toda a sua amplitude, como suporte do pensamento cristão e, outrossim, da religião cristã?
E daqui, que ubiquidade se evidencia nesta triangulação lógica? – Razão/Fé?; a Fé da Razão?; ou a Razão da Fé?
Ficam-nos as questões, mas sem nunca esquecer, também, que ter fé é ser forte, uma vez que a dúvida, alicerce do método, restringe a energia; por isso, acreditar é poder (que o digam os desportistas em competição ou os militares em combate). Não é por acaso que a esperança é a última a morrer e os deserdados do mundo saberão sempre sorrir, crendo.
E aqui reside verdadeiramente a razão da fé, e o mistério desta última.

*

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Pensamentos Segundos publicados no mês seguinte - (Agosto de 2010 -, a cumprir promessa a não saber a quem: a Deus, ou a mim próprio?... 

(II)


Vendo o primeiro-ministro com os olhos a brilhar como os de um menino, por ter visto aprovar a “lei do casamento homossexual”, rodeado de figurões da causa, nacionais e estrangeiros, onde o senti como peixe dentro de água, penso neste país encravado…

... e reflicto: nesta Europa a tremer com a derrocada da economia grega e nuns Estados Unidos da América a temer a propagação da crise que continua a acentuar-se neste mundo ocidental; reflicto: numa China, numa Índia, numa Rússia (BRIC) e até num Brasil, a crescerem a olhos vistos e a receberem os salamaleques ocidentais da mesma forma como os antigos do “Impérios do Meio” viam com algum desprezo os andrajosos das caravelas que lá chegaram, enquanto se vestiam de sedas e se passeavam por calçadas empedradas, abanando os seus leques. Penso como se riem agora, porque perceberam que está a voltar aquilo que, para esses, das antigas índias e do velho reino de Catai, esta é a situação normal do mundo.
Por cá, no meio do nacional desvario por causa do sempre eterno déficit, reflicto nas palavras de Eça de Queiroz, escritas em “Uma Campanha Alegre”, com o amigo Ramalho Ortigão:

“Nós estamos num estado comparável somente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma decadência de espírito.
Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país caótico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa da Europa – citam-se, a par, a Grécia e Portugal.”

Estávamos nós em 1872…

Reflectindo no trecho acima, a minha perspectiva do copo meio cheio, que deverá, sempre, a meu ver, suplantar a do copo meio vazio, leva-me imediatamente a pensar que, contudo, ainda cá estamos, evidentemente. No entanto, também a aferição desta evidência cíclica, num permanente adiamento das realidades nacionais envolto em sortilégios sempre presentes que nos colocam a discutir e a legislar acerca do sexo dos anjos, omitindo a vida da maioria interessada, trocada em debate parlamentar pelas sempre eternas insatisfações das minorias, torna-se em algo cada vez mais penoso de observar.
Sabemos bem da importância fundamental das minorias na transformação social – até porque as maiorias deixam sempre ficar tudo como está –, mas incomoda-me particularmente que às segundas, sustentáculos da vida comunitária, continuamente sejam impostos os novos valores das primeiras, à força de Decreto.
Reflicto assim me preocupando com a aparente despreocupação política com as dificuldades dos que formigam no dia-a-dia, intrinsecamente desvalorizados a favor das causas de poucos, cujo contributo para a transformação é inquestionável, repito, mas não tão transversais nestes tempos de desespero. Como aquele desespero dos desempregados ou como aquele que surge dos efeitos nefastos do crescente desvario do crédito fácil por parte dos que ainda a isso têm acesso. Tudo isto sem que os tais responsáveis políticos tenham a coragem de colocar um travão neste aproximar do abismo e que fará muitos erguerem, finalmente, as mãos aos céus.


segunda-feira, 14 de maio de 2012

O Primeiro dado a público, nos idos de Julho de 2010

(I)

Inauguração em página aberta desta minha epístola, com nervoso miudinho. Mas o aval do director é terreno seguro, o assunto escolhido abrangente e as palavras postas em forma de letra são minhas companheiras há mais de metade da minha vida.
Estas, aqui, acompanhadas da estreia de criptónimo, nunca antes usado em coluna opinativa; ou outra qualquer, que fosse ou pudesse ter sido.
A ver quanto dura. Hoje…

… reflicto: nas palavras do Papa há pouco ido deste nosso território de Paz – “A Igreja está aberta, em colaboração com quem não marginaliza nem privatiza a essencial consideração do sentido humano da vida” – às quais acrescenta – “Não se trata de um confronto ético entre um sistema laico, mas uma questão de sentido à qual se entrega a própria liberdade. O que divide, é o valor dado à problemática do sentido e a sua implicação na vida pública”.
Atribuo a estas palavras o sentido do meu entendimento, exegese da minha hermenêutica.
Antes sempre de olhos encovados, parece vivificado desde que chegou a este cantinho à beira-mar plantado, a expressão limpa e clara. Nunca o vi sorrir tanto e durante tanto tempo. E depois, estas palavras que me falam ao ouvido, às culpas dos gananciosos, à esperança dos empobrecidos.
Parecem-me transparentes como a água que se quer privatizar, frescas como os jardins que se fecham ao cidadão comum das grandes cidades, airosas como a atmosfera por cima dos smogs dos grandes centros fabricantes dos latifundiários industriais de hoje em dia.
(há quem me diga que, aqui, o fulcro da questão é o assunto do “aborto”… Talvez, mas as palavras, depois de ditas, são mais de quem as ouve).
Hoje aceito melhor este que será o Papa desta minha segunda (ou terceira, ou até quarta) etapa da minha vida. Sê-lo-á muitos anos, com certeza, menos talvez que o anterior, mas muitos também. Até porque, de ano para ano, os meus anos tornam-se-me mais importantes para mim… se bem que menos, para os outros, na triste lei da vida.

Dias depois, revejo a visita de Sua Santidade ao Porto. Continua com a face iluminada e parece não querer deixar a multidão que acena. O seu “papamóvel” é inclusivamente aberto, parcialmente, pelo menos, para beijar um nasciturno.
De volta a território do Vaticano, envia mensagem ao bispo do Porto, onde confessa a sua boa e surpreendida impressão pela felicidade genuína que constatou nos rostos das hostes portuenses que o aclamavam.
Não foi uma mensagem de simpatia, somente, mas autêntica admiração ditosa, que, não duvidamos, o tornou ainda mais radiante nesta visita a este nosso Portugal, um dos mais belos e aprazíveis portos de abrigo do mundo.

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