Pensamentos Segundos publicados no mês seguinte - (Agosto de 2010 -, a cumprir promessa a não saber a quem: a Deus, ou a mim próprio?...
(II)
Vendo o primeiro-ministro com os olhos a brilhar como os de um menino, por ter visto aprovar a “lei do casamento homossexual”, rodeado de figurões da causa, nacionais e estrangeiros, onde o senti como peixe dentro de água, penso neste país encravado…
... e reflicto: nesta Europa a tremer com a derrocada da economia grega e nuns Estados Unidos da América a temer a propagação da crise que continua a acentuar-se neste mundo ocidental; reflicto: numa China, numa Índia, numa Rússia (BRIC) e até num Brasil, a crescerem a olhos vistos e a receberem os salamaleques ocidentais da mesma forma como os antigos do “Impérios do Meio” viam com algum desprezo os andrajosos das caravelas que lá chegaram, enquanto se vestiam de sedas e se passeavam por calçadas empedradas, abanando os seus leques. Penso como se riem agora, porque perceberam que está a voltar aquilo que, para esses, das antigas índias e do velho reino de Catai, esta é a situação normal do mundo.
Por cá, no meio do nacional desvario por causa do sempre eterno déficit, reflicto nas palavras de Eça de Queiroz, escritas em “Uma Campanha Alegre”, com o amigo Ramalho Ortigão:
“Nós estamos num estado comparável somente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma decadência de espírito.
Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país caótico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa da Europa – citam-se, a par, a Grécia e Portugal.”
Estávamos nós em 1872…
Reflectindo no trecho acima, a minha perspectiva do copo meio cheio, que deverá, sempre, a meu ver, suplantar a do copo meio vazio, leva-me imediatamente a pensar que, contudo, ainda cá estamos, evidentemente. No entanto, também a aferição desta evidência cíclica, num permanente adiamento das realidades nacionais envolto em sortilégios sempre presentes que nos colocam a discutir e a legislar acerca do sexo dos anjos, omitindo a vida da maioria interessada, trocada em debate parlamentar pelas sempre eternas insatisfações das minorias, torna-se em algo cada vez mais penoso de observar.
Sabemos bem da importância fundamental das minorias na transformação social – até porque as maiorias deixam sempre ficar tudo como está –, mas incomoda-me particularmente que às segundas, sustentáculos da vida comunitária, continuamente sejam impostos os novos valores das primeiras, à força de Decreto.
Reflicto assim me preocupando com a aparente despreocupação política com as dificuldades dos que formigam no dia-a-dia, intrinsecamente desvalorizados a favor das causas de poucos, cujo contributo para a transformação é inquestionável, repito, mas não tão transversais nestes tempos de desespero. Como aquele desespero dos desempregados ou como aquele que surge dos efeitos nefastos do crescente desvario do crédito fácil por parte dos que ainda a isso têm acesso. Tudo isto sem que os tais responsáveis políticos tenham a coragem de colocar um travão neste aproximar do abismo e que fará muitos erguerem, finalmente, as mãos aos céus.
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